Underground


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"Underground" é um poema à geografia do delírio. Emir Kusturica sabe, como todo grande artista, que a melhor maneira de dizer a verdade é mentindo e o faz quando, ao abrir o alçapão de seu universo, revela uma criação que alia comédia política, alegoria farsesca, música cigana e caricatura numa mise-en-scéne embri...agada de desenho animado e traumas de guerra. Tudo no tudo.

Apesar de poucos títulos a obra cinematográfica de Emir Kusturica é expressiva. Um bom exemplo de sua capacidade em surpreender e desnortear o público é Underground – Mentiras de Guerra, vencedor da Palma de Ouro em Cannes (1995). De forma surreal, alegórica e criativa, o diretor levou para a tela grande meio século da história iugoslava. Tudo isso numa trama delirante na qual, durante a Segunda Guerra, dois amigos fazem fortuna utilizando um grupo de refugiados num porão para produzir armas que vendem no mercado negro. Ao final do conflito, continuam iludindo o grupo por quinze anos, para poder explorá-los. Uma visão crítica da realidade humana, social e política. Kusturica foi um dos poucos diretores a ganhar a Palma de Ouro em Cannes por duas vezes. Ele também levou o prêmio em 1985, com o filme "Quando papai saiu em viagem de negócios".

O filme é grandioso tanto no período de tempo que focaliza (começa no início dos anos 40 e vem até a data de sua realização, 1995) quanto na localização de sua ação, que se passa em várias cidades iugoslavas. Além disso, a ficção é entremeada por imagens documentais que revelam a intenção de se criar um grande painel sobre a história recente da Iugoslávia até sua dissolução.

O filme começa com a investida alemã contra Belgrado em 1941. A cena inicial já sugere ao espectador o tom do filme. A invasão nazista é percebida a partir da reação dos animais do zoológico da cidade, que pressentem e se desesperam com a aproximação de aviões em vôo rasante sobre Belgrado. A irracionalidade, inicialmente confinada em suas jaulas e tratada com dedicação pelo tratador do zoológico Ivan, um dos protagonistas da história, está liberada com a chegada dos nazistas. Com essa metáfora, Kusturica introduz o público na insânia da história iugoslava dos últimos 50 anos: os nazistas, a Resistência, o longo governo do Marechal Tito, sua morte, a guerra étnica e a dissolução do país.

Na França, Kusturica foi acusado de ter se posicionado a favor da Sérvia, a grande vilã da guerra étnica contra a Bósnia, embora ele tenha nascido em Sarajevo, capital da Bósnia. A acusação veio de intelectuais que posteriormente confessaram não ter assistido ao filme. É provável que não tenham nem passado pela porta do cinema. Underground - Mentiras de Guerra pode até ser considerado longo demais (o filme dura mais de três horas), às vezes excessivamente complexo em sua trama mirabolante, delirantemente alegórico. Mas, é difícil assisti-lo sem ficar com a impressão de que Kusturica faz ali uma elegia sentida ao seu país de origem, a Iugoslávia, que já não existe mais.

Apesar de atacado pela crítica francesa, Mentiras de Guerra conseguiu chegar ao grande público e fazer muito sentido. Num momento em que as antigas noções de país, de nação, se desmancham no ar, Kusturica constrói uma obra que procura encontrar a gênese da dissolução e encará-la de frente.

Na cena final, os personagens principais estão numa festa numa pequena península - uma representação da península balcânica - que aos poucos vai se destacando e se deslocando da terra. A cena pode ser vista como metáfora de um desejo separatista. Mas é infinitamente mais interessante se pensada como uma constatação e um convite: o país imaginado e desejado já não existe mais; e é preciso repensá-lo a partir desse fato. No caso do filme, esse país é a Iugoslávia. Mas pode ria ser qualquer outro.

MFCorreia para o MKO

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